Sessão de Q&A com candidata a doutoramento do projeto CAR T-Matters

Patrícia Sobral é candidata a doutoramento em Química Sustentável pela Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa e integra o projeto CAR-T Matters. O projeto, pioneiro a nível nacional, conta com um consórcio de parceiros industriais, académicos e clínicos – Stemmatters, IPO-Porto e UCIBIO/FCT NOVA/LAQV.

A Patricia explora, através de abordagens de modelação e de química computacional, os recetores Siglec-7 e Siglec-9 como alvos para o desenvolvimento de pequenas moléculas capazes de melhorar a eficácia das terapias celulares CAR-T. O trabalho realizado no seu projeto de doutoramento representa um contributo importante na componente químico-informática do projeto CAR-T Matters.

Entre o entusiasmo da descoberta, a paixão pela ciência e os desafios de trabalhar na vanguarda da inovação, Patrícia Sobral conta-nos como é fazer parte de um projeto como o CAR-T Matters.


O que te motivou a seguir investigação na área da Química Sustentável e Terapias Celulares, em particular as CAR-T? 

Sempre me interessou trabalhar em algo que pudesse ter um impacto real na vida das pessoas, especialmente na área do cancro. As terapias CAR-T representam uma das abordagens mais inovadoras e promissoras no tratamento de doenças oncológicas, e a ideia de poder contribuir, mesmo que de forma pequena, para esse avanço é algo que me motiva. Ao mesmo tempo, a Química Sustentável oferece-me uma base para pensar a ciência de forma mais consciente e responsável. Juntar estas duas áreas faz-me sentir que o meu trabalho pode ter um significado verdadeiro, tanto para a ciência como para quem mais precisa dela.

Quais são os principais objetivos científicos em que te estás a focar neste momento? 

Neste momento, estou focada em desenvolver modelos computacionais que ajudem a perceber como certas moléculas podem interagir com recetores imunitários, como os Siglec-7 e Siglec-9. A ideia é usar esses modelos para apoiar o desenvolvimento de pequenas moléculas que possam modular a resposta imunitária e, no futuro, contribuir para melhorar a eficácia das terapias CAR-T. Além disso, quero aprofundar os meus conhecimentos em quimioinformática e programação, especialmente em Python, para me tornar cada vez mais autónoma na análise e interpretação dos dados, competências que considero essenciais para crescer como investigadora nesta área.

Quais são os principais desafios técnicos que tens encontrado no desenvolvimento do teu projeto de doutoramento?

Um dos maiores desafios tem sido lidar com a enorme quantidade e complexidade dos dados. É preciso garantir que tudo está bem tratado e coerente antes de fazer qualquer modelação. Outro desafio é traduzir sistemas biológicos complexos em algo que possa ser representado e estudado computacionalmente.  É um processo de tentativa e erro constante, mas também é isso que torna o trabalho estimulante.

Como tem sido a experiência de trabalhar no âmbito do projeto CAR T-Matters?

Tem sido uma experiência muito boa e, ao mesmo tempo, um grande desafio. O CAR-T Matters é um projeto que quer desenvolver uma solução nacional para a produção de terapias CAR-T, o que é algo bastante ambicioso e inspirador. Dentro desse objetivo maior, o meu trabalho contribui para a componente químico-informática, que ajuda a identificar novas moléculas com potencial para melhorar a eficácia e a segurança destas terapias. Tem sido interessante perceber como o meu doutoramento se encaixa neste contexto mais amplo. Aquilo que faço, a modelação molecular e o desenvolvimento de modelos computacionais (QSAR), é uma pequena parte de um esforço muito maior, que vai desde a investigação básica até à produção e validação clínica. Trabalhar com equipas tão diferentes, como a da Stemmatters e do IPO Porto, tem-me ajudado a ver a ciência de uma forma mais integrada e aplicada. Esta experiência tem sido uma das partes mais gratificantes deste percurso.

De que forma fazer parte deste consórcio tem contribuído para o teu crescimento pessoal e científico?

Tem contribuído muito. Por um lado, a nível científico, tenho acesso a uma rede de pessoas e conhecimentos que nunca teria sozinha. Trabalhar num consórcio tão completo que envolve o IPO Porto, a Stemmatters e a NOVA-FCT tem sido uma experiência única. Cada parceiro traz uma perspetiva diferente: o IPO com o lado clínico, a Stemmatters com a componente tecnológica e de desenvolvimento e a FCT com a vertente académica e de investigação fundamental.  Perceber como o meu trabalho se articula com estas diferentes áreas ajuda-me a manter a motivação e a reconhecer o potencial impacto  daquilo que faço.

Como vês o futuro das terapias CAR-T em Portugal?

Acho que o futuro é muito promissor. Em Portugal começa a haver uma base científica e tecnológica forte para desenvolver este tipo de terapias. E o nosso consórcio, especialmente o IPO Porto e a Stemmatters, pode desempenhar um papel central nesse avanço , o primeiro com toda a experiência clínica e novas infraestruturas, e o segundo com a parte tecnológica e de produção. Ainda há um caminho considerável a percorrer, mas sinto que estamos a dar passos sólidos.

Há algum momento ou descoberta recente que te tenha marcado durante este percurso como cientista?

Sinto que o melhor ainda está para vir. Um momento que me marcou muito foi o primeiro encontro presencial do consórcio, no IPO Porto. Foi um dia especial e bastante emotivo. Visitar as instalações e ver de perto doentes a receber terapias CAR-T deu um novo significado ao meu trabalho. Perceber que aquilo em que trabalhamos, muitas vezes de forma tão teórica, tem um impacto direto e imediato na vida das pessoas, foi profundamente transformador. Saí com ainda mais vontade de continuar e de contribuir, da melhor forma possível, para que estas terapias se tornem cada vez mais acessíveis e eficazes.

Como é trabalhar numa área e para um projeto que tem potencial para transformar vidas e a medicina a nível nacional? 

É uma sensação incrível, mas também uma grande responsabilidade. Saber que o que fazemos pode, um dia, ajudar a melhorar tratamentos ou até salvar vidas é uma motivação enorme. Mesmo nas fases mais difíceis, é essa consciência do impacto humano da ciência que me faz continuar.


O percurso da Patrícia Sobral é um testemunho do entusiasmo e da ambição do projeto CAR T-Matters. A sua experiência relembra-nos não só o impacto humano que acompanha cada etapa de investigação, mas também salienta a importância de criar ambientes onde os jovens investigadores possam crescer, aprender e contribuir para a inovação em saúde.

No consórcio CAR T-Matters, acreditamos que a formação avançada, aliada ao contacto com equipas multidisciplinares, desafios reais e uma visão integrada da ciência translacional, é fundamental para o progresso científico e para o desenvolvimento de terapias celulares em Portugal.


LinkedIn Patrícia Sobral